1 de agosto de 2015

Poesia realista brasileira: A Suprema felicidade {FILME}


Nome: A Suprema Felicidade
Data de lançamento: 29 de Outubro de 2010
Direção e roteiro: Arnaldo Jabor
País de origem: Brasil
Gênero: Drama
Duração: 125 minutos
Alguns nomes do elenco: Marco Nanini, Ary Fontoura, Cintia Rosa, Dan Stulbach, Emiliano Queiroz, João Miguel, Jayme Matarazzo, Maria Flor, Maria Luisa Mendonça e Tammy Di Calafiori.




Sinopse: O menino Paulo, de oito anos, assiste com os pais, Marcos e Sofia, as comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial. Seu melhor amigo é Cabeção, os dois moram na mesma rua e estudam juntos em um colégio jesuíta. Já adolescente, Paulo tem que lidar com a frustração de seu pai por nunca ter dirigido um jato. Ele acaba se aproximando do avô Noel, um funcionário público boêmio que o inicia na vida noturna carioca. Quando conhece Deise, uma jovem misteriosa, Paulo se apaixona, mas o caso entre eles não dá certo e ele passa a frequentar cada vez mais a área de prostituição do Rio. Um dia, no cabaré Eldorado, Paulo reencontra seu pai, triste e solitário. Os dois se aproximam e passam a dividir uma grande admiração pela jovem Marilyn, de apenas 16 anos, que é obrigada pela mãe a tirar a roupa para clientes. Essa repentina aproximação entre pai e filho e uma inesperada história de amor provocam uma reviravolta na vida de todos.


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Queridos, hoje dia primeiro de Agosto, venho trazendo algumas reflexões sobre o filme "A Suprema Felicidade". Filme nacional e com uma elaboração bacana. É incrível como fiquei tocado com algumas situações apresentadas na obra. Vamos lá?

Desde o início somos apresentados a uma realidade - que mesmo sentida e sofrida - é de comemoração: o fim da Segunda Guerra Mundial. Fogos, alegria e muita dança permeia as cidades brasileiras. Paulo, é um menino de oito anos, que vai crescendo juntamente com seu melhor amigo Cabeção, vendo a realidade que a vida lhes oferece.

Desde cedo os meninos são educados numa instituição de ensino jesuíta onde o pecado, podemos dizer assim, impera. Tem toda aquela magia e dúvida adolescente a respeito de Deus e as intolerâncias da religião, dúvidas sobre o porque de todas as coisas, sexualidade, desejos e hormônios à flor da pele e toda a confusão e busca por respostas em prostíbulos e nos vícios da bebida e do fumo que são bem comuns entre alguns jovens.

Na medida que o menino Paulo vai crescendo, ele vai presenciando o casamento de seus pais, Sofia e Marcos se deteriorar. Há um amor incondicional deste filho com os pais e com seus avôs, principalmente Noel, de quem desde pequeno, fica muitíssimo apegado. E é um dos personagens mais alegres e tocantes do filme. Sobre ele falo mais abaixo. O pai de Paulo, o Marcos, infelizmente depois de algumas desilusões e anseios frustrados no meio profissional de trabalho, se rende ao vício da bebida e se entrega à solidão.

Em meio aos bordéis e prostíbulos da época, daqueles anos, Marcos leva uma vida boêmia e solitária, sempre marcada pela decepção interior. Quer tocar e viver para as "mulheres da vida" tentando arrumar um refúgio dentre tantos erros e mágoas não superadas. O Paulo, seu filho (e é o que eu acho lindo nele, essa preocupação e cuidado com a família), está sempre nos momentos de crise e de fundo do poço com o pai, com o avó, com a mãe e com todos os que precisam dele. Com sua família.

Em meio estas andanças e procuras pelo seu pai nos prostíbulos, ele (Paulo/Paulinho) encontra uma mulher que mudaria toda sua perspectiva de amar, do que é o amor. Aquele amor juvenil, aquele amor que te arrebata e te deixa sem fôlego conectado com Deus, o mundo, o universo. Marilyn era o nome dela. Uma menina da noite da prostituição, com apenas 16 anos, obrigada pela mãe a viver uma vida dupla. Não direi mais sobre ela, sobre a profissão e o papel que ela exerce, nem sobre a relação dela com ele, porque senão vou soltar uns spoilers tensos. Tem que assistir para sentir o gostoso dessa relação recém descoberta se desenvolve.


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Os anos vão se passando, a vida vai tomando aquele rumo inesperado, alguns com finais tristes, outros tentando ser feliz mesmo em meio às doenças, problemas e adversidades e tudo vai passando inevitavelmente. Com ou sem dor. Com ou sem amor.

O papel que o Marco Nanini desenvolve como o Noel, é estrondoso, fenomenal, vívido e real. Sem exageros, ele é brilhante. Na trama ele é aquele avô sempre alegre, brincalhão, prestativo e defensor, que está se doando sempre pelas pessoas que o cercam. Aquela pessoa que só traz alegria por onde passa, coisa rara nos nossos dias, mas não escassa. Ele é o adulto que em meio às realidades sofridas que as prostitutas passam diariamente, arruma tempo para ser o avô brincalhão, inocente e conselheiro. Seus ensinamentos remetem à ideia de viver a vida em sua plenitude, em sua harmonia eufórica, em meio a dança e ao gingado dos ritmos brasileiros, do samba, do pagode, de melodias de alma poética.

Ele desempenhou um papel esplendoroso, de verdade. Nota mil. Acontece algo com ele nos momentos finais do filme que é de partir o coração, principalmente para mim que tenho horror e fico muito tocado ao que o acomete na velhice. É de partir o coração. Não posso dizer o que é, apenas assistam. Sem dúvidas o Jayme Matarazzo, como Paulo, interpretou de forma singela e belíssima o personagem quando jovem adulto. Brilhante o desenrolar da formação de sua identidade como ser humano e homem na trama. A atuação do Emiliano Queiroz também foi fenomenal, gostei bastante.

Eu sinceramente não sei porque este filme recebeu tantas críticas negativas. Por ser um filme longo ou simplesmente por não entreter como alguns mencionaram. Amigos, achei o filme uma belíssima poesia entrelaçada com a realidade. De verdade. Não vi interpretações horríveis, nem muito menos roteiro sem sentido. Eu vi a realidade crua de que nem tudo termina bem e com um final feliz, tal como é a vida real. Os personagens são acometidos a situações que os fazem agir da forma mais esperada e inesperada possível. Todo drama, sujeira, decepção e crueldade humana também é mostrada ao lado do calor, da bondade e do amor real. Isso que é ser ser humano, isto que é vivenciar tantas emoções e estados de espírito ao mesmo tempo. Não só uma guerra carnal e sim também o poder de nossa mente que nos guia em muitas decisões de vida.

Não gostei tanto e, posso dizer com toda propriedade, que infelizmente houve um personagem que (na minha opinião) não teve desfecho, ou pelo menos o desfecho merecido. Queria ver algo desenrolar da parte deste personagem. Queria ver este personagem se relacionar, principalmente no cenário da época para esta realidade. Apenas fiquei com a sensação de quase duas horas de filme e nada ser mostrado a mais deste personagem, apesar de ser um personagem que sempre esteve presente. Mesmo não sendo o foco da trama, acho que merecia algo mais profundo. Não sei se quem assistiu também ficou com essa sensação sobre esse alguém específico do filme. Pode ser que não também, de boa.

Para fechar este post com chave de ouro, digo: O filme é a imagem perfeita do vício solitário. Da realidade humana, de suas quedas e desilusões amorosas e de relacionamentos. Muitas coisas ocorrem e eu não relatei para não perder a magia do filme. Fica então aqui a dica para vocês assistirem pois vale a pena. Para mim valeu e não foi tempo perdido. No início achei um pouco confuso, pois fui ver o filme (de propósito) sem ler nada a respeito, nem saber de nada da trama. Fui descobrindo junto com os personagens. Valeu a pena.

E quem já assistiu ai? Vamos falar sobre este drama, valorizar o cinema nacional é uma maravilha, pois também temos produções maravilhosas que trazem nossa realidade crua estampada na bola de futebol, entoada divinamente falha no hino nacional. Vamos conversar! <3
Ewerton Lenildo
Ewerton Lenildo

Garanto tudo, menos dignidade. Sou o furacão dos dias mansos e a brisa das trovoadas. Gosto dos detalhes e dos temperos fortes. Tudo o que eu faço na minha vida, faço com supremacia. Onde escrevo: o Viajante das Letras e o Vegano Recifense. 🌲 🌳 🌴

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